No verso

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Lá estavam as páginas, todas rabiscadas, e ela com o lápis de cor na mão.

Com vontade de pintar um novo amanhecer, de um céu azul daqueles de dias quentes.
Com vontade de fazer voar aquela borboleta que, ontem, ainda vivia no casulo.
Vontade de pintar as folhas verdes que colorem e enchem de esperança.
E todas aquelas flores do campo com que sonhou.

Só queria escrever a palavra amor e contorná-la com um coração.
Pintar uma boca pra beijar e deixar no papel a marca do batom.
queria desenhar uma mão, uma proteção qualquer.

Pintaria um risco infinito por onde caminhar, um círculo pra guardar as coisinhas de toda uma vida.
Pintaria breves, mínimas, colcheias e fusas, tudo pra cantar o que mandasse o coração.
Pintaria o infinito, o invisível, as asas da liberdade.

Mas lá estavam as páginas, todas completamente rabiscadas, e ela com o giz de cera na mão.

Com uma vontade enorme de colorir a vida e pendurar em uma parede lá do corredor.
Pra olhar e continuar a querer.
Pontilhar uma aliança que renovasse a fé.
Pintar os sonhos perdidos.

Sem onde riscar, sem onde colorir.

Até que A Voz, aquela que só diz quando a gente cala e presta atenção, ensinou o que era importante de verdade:
‘Vire a página, filha. Atrás ainda é branco’.

Claro! atrás ainda era branco.
Apesar das marcas deixadas pelos riscos feitos naquilo que se tornou verso
[aquelas marcas que sempre ficam].
Ainda era branco.
Limpo e pronto para um novo colorido que vem vindo devagar, tracinho por tracinho.

Michelle Ferraz.

Prioridade

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Parece bem simples, na verdade. Uma sequência quase lógica, uma fórmula quase mágica de felicidade: primeiro Você, e então tudo o mais vem com a abundância que tem que vir, e eu nem me importo com a forma, porque já estaria tão plena e cheia e feliz, que o que viesse seria bônus. Um presente a mais por já estar feliz da vida na Presença que importa. Depois, se algum desespero, ou mesmo aquela ‘ansiosa solicitude pela vida’ quisessem massacrar meus sentimentos, era só suplicar confiadamente na paz que eu não entendo e ela guardaria, na concha da mão, mente e coração. Mas o coração, ah. Ele. Ele e o vendaval de afetos e desafetos que embaraçam as minhas escolhas todo dia.

Não é ingratidão. Aliás, obrigada pela liberdade (ainda que a minha noção de liberdade esteja confusa desde sempre). Só queria te dizer que é muito difícil, mas escolho a confiança que Você diz que eu posso ter. Só queria reafirmar que estou tentando querer tanto uma coisa a ponto de deixá-la nas suas mãos. Sonhar tanto, até não buscar o sonho como primeiro objetivo de vida. Desejar tanto e esperar.

Se os seus pensamentos de paz incluem os meus sonhos mais detalhistas, eu digo sim. Se não incluem, digo sim de novo, para aceitar sonhos melhores. E essa paz que eu não entendo, e nem preciso entender, me traz a alegria que deixa o rosto bonito. Porque as melhores coisas da vida não são conquistadas com a ansiedade corrosiva que vem do inferno, mas no descanso de quem é amado.

E cedinho, como hoje, ontem e todos os dias em que arrisco um olhar profundo pro céu, digo: ‘obrigada, eu sabia que seria bom’. E a resposta vem num sussurro, dentro de mim: ‘mas você, como todo mundo, nunca sabe que será surpreendente’.

Me ensina a buscar o que importa e a enxergar que é Você a recompensa. E o que vier depois disso vai se juntar à imensa alegria de pertencer a quem tem em Si mesmo todo amor e satisfação que alguém pode querer.

Busquem, pois, em primeiro lugar, o Reino de Deus e a sua justiça,
e todas essas coisas lhes serão acrescentadas.
Mateus 6.33

Não andeis ansiosos por coisa alguma; antes em tudo sejam
os vossos pedidos conhecidos diante de Deus, pela oração e súplica
com ações de graças; e a paz de Deus, que excede todo
o entendimento, guardará os vossos corações e
os vossos pensamentos em Cristo Jesus
Filipenses 4. 6-7

Porque eu bem sei os pensamentos que tenho a vosso respeito, diz o Senhor;
pensamentos de paz, e não de mal, para vos dar o fim que esperais.
Jeremias 29.11