Cristianismo X Política

A comunidade evangélica em nosso país soma já alguns milhões, distribuídos em todas as unidades da Federação, na maioria de seus municípios, principalmente nos grandes centros urbanos. Somos uma comunidade de composição diversificada: homens e mulheres de todos os grupos étnicos, de todos os níveis de instrução, de todos os níveis sociais. Retratamos de certa forma, a realidade do país. Simbolizamos a universidade da destinação da mensagem do evangelho: a toda criatura. Somos uma comunidade pluralista com nítida tendência à mobilidade social ascendente.

À nossa presença física e representação numérica não correspondem iguais peso, influência e impacto na vida nacional. Nossa comunidade tem vivido voltada para dentro de si mesma, suas atividades, programações, alegrias e tristezas, endoconcentrada, como uma subcultura, numa consciência de minoria. Passado o tempo da discriminação que nos era imposta, optamos por um auto-isolamento, construindo, em paredes mentais, a realidade nefasta de um gueto. A esse isolamento corresponde uma diminuição da possibilidade de influenciar a sociedade com nossas idéias.

Agora, eu te faço duas perguntas: 

1. A política é mundana, não sendo, portanto, lugar para os crentes? 

 2. Não adianta fazer coisa alguma; devemos pregar o evangelho e aguardar o retorno do Senhor? 

Percebe-se, nitidamente, o desconhecimento de uma teologia política, como uma das dimensões da ética, dentro da teologia sistemática. A leitura dos textos bíblicos referentes ao social e ao político é “espiritualizada”, em deturpação de seu sentido original. Confunde-se, por exemplo, a categoria mundo, que nas Escrituras traduz vocábulos diversos e sentidos vários. Tudo isso se agrava por uma leitura superficial da escatologia pré-milenista: a expectação das coisas futuras nos conduz a uma inação diante das coisas presentes; a realização na pós-história nos faz perder o sentido da história.

“Se não pode ser meu, não é bom; não sendo bom, não devo desejar; não desejando, sem poder alcançar, não me frustro”. 

Em nossa mente — e em nossa teologia popular não formalizada — tem lugar uma divisão das coisas em boas e más. Certas áreas de atividade humana seriam consideradas más, território privado do inimigo, aonde não devemos ir, sob pena de inevitável derrota. Algumas dessas áreas — as artes, os esportes, os meios de comunicação, a política — são justamente as mais importantes em termos de influência para a sociedade como um todo.

Por ignorância, preconceito, ou medo, entregamos de mão beijada o “filé do mundo” a Satanás e nos retraímos para as áreas menos desafiantes. Estamos nos concentrando nas profissões técnicas, executivas e liberais, não contribuindo criativamente com a formação da inteligência nacional. Raros, solitários, incompreendidos e impotentes são os que se aventuram à sociologia, à antropologia, à ciência política, à filosofia e às expressões artísticas e literárias.

A visão da igreja local como um feudo e da denominação como uma tribo, somada a um individualismo extremado, arredio ao associativismo, que tem caracterizado uma das deturpações históricas da ética protestante, somente agrava o quadro. Tudo isso debilita a possibilidade de influência.

O verão do mundo não será feito pelo vôo de andorinhas solitárias, alvos mais fáceis ainda dos caçadores. 

Nas últimas décadas, a presença de evangélicos na política tem se caracterizado pelo individualismo de atuação (além do despreparo ético e científico de alguns), descompromisso com a comunidade de fé, ausência de uma análise crítica global dos problemas e de projetos alternativos, caindo em um imediatismo de medidas da rotina das coisas, de cunho meramente assistencialista e clientelístico.

Sem uma identidade, sem uma contribuição própria, tende-se a seguir a reboque dos diversos líderes, partidos e ideologias, tanto à direita quanto à esquerda. O antipoliticismo de tantos é complementado pelo exagerado adesismo de muitos.

O texto que nos manda obedecer às autoridades é deturpado em sua interpretação; do institucional é transmudado em obediência cega a determinado partido, ideologia ou sistema econômico, levando à perda da dimensão profética, desafiadora, transformadora, que deve ser apanágio da comunidade dos remidos.

A perda da identidade não se dá apenas na sacralização do status quo (este regime = mais cristão), mas, de igual modo, na sacralização do status quo de determinado país estrangeiro ou modelo alternativo (outro regime = mais cristão).

Nota-se, cada vez mais, uma insatisfação quanto à presente maneira de ser e agir da comunidade evangélica, notadamente entre os jovens. Todos estão preocupados em expandir a influência da nossa fé libertadora pelo país, escravo do sincretismo, da idolatria, dos cultos falsos, dos valores negativos, onde grassa a cegueira espiritual, a imoralidade e a injustiça. A cada época, devemos reexaminar nossos deveres e possibilidades, em obediência à voz do Senhor, para a expansão do seu reino.

Lamento que sejamos — como evangélicos — uma multidão carente de discernimento, envolvimento, misericórdia, ardor pela justiça, amor pelos excluídos, coragem profética e coragem (e conteúdo) para fazer um país diferente. Vale a pena continuar tentando, esperando, intercedendo, clamando. 

Fonte: Robinson Cavalcanti / Ultimato 

Andre Lucas

Extraído de Sai do Muro

Acrescentando só mais uma coisa, NA MINHA OPINIÃO, púlpito de igreja não é palanque de comício, acho uma ideia legal os cristãos se interessarem mais pela política, não que se envolvam pra se elegerem, mas buscar ter mais conhecimento do mundo político porém sou extremamente contra político subir ao altar pra pedir voto! Deus abençoe você!

Felipe Guimarães